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Travas do autor

Não tenho história boa: o sentido do que se viveu

A afirmação que paralisa antes mesmo de a pessoa sentar para escrever. De onde ela vem e o que ela está realmente dizendo.

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Não tenho história boa

A frase aparece em sala de aula, em conversa de mentoria, em mensagem de chat às onze da noite. “Eu não tenho uma história pra contar.” Sempre com a mesma entonação: é uma conclusão que a pessoa já verificou antes de dizer em voz alta. “Eu não tenho nada interessante pra contar.”

Quando você desdobra o que ela está dizendo, o conteúdo é outro: o que eu vivi não significa nada que valha o tempo de alguém.

É uma avaliação sobre o peso da experiência própria comparada com a dos outros. E o critério que ela usa, quase sempre, é o critério do drama: só conta quem viveu coisa grande, superou tragédia pior, tem a versão mais extrema do que você tem em versão comum. Quem viveu de forma mediana, em família estável, sem crise de identidade espetacular, conclui que está com as mãos vazias.

O critério está errado. A raridade de uma experiência não determina se ela vira história. Determina como você a edita.

“Quando eu comecei minha carreira, vinte anos atrás, eu não me achava criativo.” Fernando Palacios conta isso em aula, e conta porque passou pelo mesmo cálculo, com o mesmo resultado equivocado. A virada não foi ter vivido algo melhor. Foi aprender a enxergar o que já estava lá com outros olhos.

A resposta para a afirmação da falta já está publicada no site da Storytellers, e é uma frase: “Sua vida não é banal. Você só não aprendeu a editar.”

A edição é a parte ensinável. O conteúdo bruto, a experiência que você tem, já existe. E o fato de você achar que não tem história boa é, por ironia, o começo de uma história muito específica: a de alguém que ainda não aprendeu a ler o que viveu.