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Travas do autor

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O travamento de escrita não chega como argumento. Chega como fato do corpo. E isso muda o que serve para desfazê-lo.

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Maria Luiza Fontenelle chegou à mentoria com um roteiro de palestra. Ela tinha o tema, tinha a experiência, tinha o que queria dizer. Mas quando sentou para escrever, veio a frase que ela levou até a conversa:

“Aí eu falo, Fernando, travei.”

Não como pensamento. Como fato do corpo.

A trava de escrita não chega em forma de argumento. Não é “eu me avaliei e concluí que não tenho nada a dizer”. É um suspiro mais curto, uma aba a menos aberta, a cadeira na frente da tela que de repente fica incômoda. E porque não tem argumento, não cede a contra-argumento. Você pode saber que tem história e mesmo assim não conseguir escrever a primeira frase.

Por isso, nenhuma lista de dicas de escrita resolve esse tipo de trava. O problema não é técnica. É permissão.

A crença que produz o travamento, quando você a encontra em forma de frase, soa assim: quem sou eu para ocupar o tempo de alguém. É uma avaliação sobre onde você está na hierarquia de quem merece atenção, e ela costuma ter sido formada antes de qualquer tentativa de publicar.

Fernando Palacios passou pelo mesmo cálculo. “Eu achava que precisava contar as histórias dos outros, que eu mesmo não tinha nada de interessante para dizer.” Isso foi no começo de uma carreira que hoje tem vinte anos. A avaliação estava errada. A sensação de estar na posição errada para ser ouvido, não.

O que muda, em geral, não é a crença. O que muda é o que a pessoa faz com o travamento quando ele chega. A trava virou personagem. Ela pode ser estudada. E estudar o personagem é o primeiro passo para parar de obedecer a ele.